Este blog está óptimo: hora após hora, dia após dia, semana após semana... não acontece nada!
É o blog mais sui generis de toda a blogosfera.
Talvez fosse boa ideia acrescentar uma musiquinha new age e uma voz suave: "olho para o monitor... sinto o vazio... apenas o espaço branco... o silêncio... a calma instala-se à minha volta... vejo de novo o ecrã vazio... a prova de que há vida fora da internet, já que ninguém tem tempo para escrever aqui!"
Tempo mudar de vida no blog, e por isso cá vai o primeiro post.
***
No seu artigo de sexta-feira, 30 de janeiro, Miguel Sousa Tavares escreve no Público que "depois do 11 de Setembro, e mesmo sem necessidade dele, ninguém pode recusar a Estado algum o direito de defesa, mesmo preventiva, contra o terrorismo. (...) Hoje, que sabemos que a ameaça iraquiana foi um embuste montado de fio a pavio, torna-se claro que a questão não é saber se os Estados Unidos têm ou não o direito de se defender do terrorismo: é claro que o têm. A questão está em saber se têm ou não o direito de decidir unilateralmente o que é terrorismo e quando é que a ameaça é verdadeira. Tão simples quanto isto."
Infelizmente, é bem o contrário: muito mais complicado.
Em primeiro lugar, temos de definir o que é "terrorismo". Há profundas divergências sobre esse conceito, que convém esclarecer antes de dar a qualquer país do mundo carta branca para se defender preventivamente. Visto do lado de lá (e até por muitos do lado de cá) o que os EUA e os seus aliados fizeram no Iraque é terrorismo. Com a diferença que os EUA têm o maior arsenal militar do mundo, incluindo as famosas armas de destruição em massa prontas a accionar em 45 minutos, e um governo que pura e simplesmente se põe à margem de qualquer acordo ou norma de direito internacional que não atenda aos seus interesses.
Em segundo lugar, discordo profundamente do direito de qualquer país a proteger-se do terrorismo por via preventiva. A questão, que estranhamente ainda não ouvi ninguém formular ou esclarecer, é: quantos civis árabes ou muçulmanos vale um ocidental? Quantos "danos colaterais" temos o direito de causar em nome da nossa segurança?
Quantos civis já foram mortos no Afeganistão e no Iraque por cada civil morto nas torres do WTC? É uma aritmética horrorosa, eu sei, mas temos de ser confrontados com as consequências dos nossos actos.
A interessantíssima discussão sobre o texto do preâmbulo da Constituição Europeia continua actual. Somos culturas de inspiração cristã ("amai os vossos inimigos")? Ou inspiramo-nos no Antigo Testamento ("olho por olho, dente por dente")? Ou ainda nem sequer chegámos aí? Se nos concedemos o direito de fazer guerras preventivas contra o terrorismo, sejamos honestos e escrevamos então: "A Europa é uma região de tradição cristã e prática bárbara".
Concordo com Miguel Sousa Tavares quando diz que, com a campanha do Iraque, os EUA se desacreditaram. No entanto, é inútil questionar o direito dos EUA a decidir quem é o inimigo do momento. Se há algo que está claro nos tempos que correm, é que o governo Bush não vai pedir autorização para decidir e agir. Resta-nos uma possibilidade: analisar o sentido das nossas alianças e das nossas acções, questionar os princípios que as baseiam.
A via que os EUA escolheram, além de contrária às aquisições mais importantes do pós-Guerra em termos de cooperação internacional, é quase suicida. Basta ver Israel e o Iraque para perceber que todos os exércitos do mundo não serão suficientes para reprimir o terrorismo. Pelo contrário, entramos numa espiral de violência que parece não ter fim.
E nós, de que lado estamos? Ser aliado é equivalente a ter comportamento de lemingue? Entre seguir cegamente as políticas dos EUA ou "ser contra eles" (cito), haverá uma terceira via?
Na véspera do ataque à sinagoga de Istambul, o ministro alemão dos negócios estrangeiros, Joschka Fischer, dizia perante alunos e professores da Woodrow Wilson School em Princeton (tradução e resumo meus, a partir de um artigo da revista Spiegel nº 48/2003): Nos próximos meses, temos de definir a estratégia para uma nova ordem mundial. A resposta estratégica ao desafio mortal lançado por este novo totalitarismo reside numa "globalização positiva", realizada conjuntamente pelos EUA e pela Europa na qualidade de parceiros iguais, e na qual se incluem uma ONU modernizada e capaz de evitar conflitos, um sistema mundial de comércio que permita aos países do terceiro mundo o acesso à riqueza, e o respeito pela Declaração dos Direitos do Homem a nível mundial. Temos de nos manter fiéis aos nossos valores básicos, mesmo em condições adversas.
No dia seguinte, após o ataque, acrescentava um ponto importante: É necessário secar os viveiros do terror. Para isso, teremos de nos confrontar longa e duramente com as suas raízes.
É pena que os meios de comunicação social não tenham estado atentos a este discurso. Está aí, como um marco que nos ajuda a medir o modo e a direcção em que avançamos.
Churchill terá dito: "Os americanos são pragmáticos. Tenho a certeza que vão encontrar a solução certa, depois de terem experimentado todas as outras."
Até lá, a "velha Europa" pode aproveitar para discutir quais são esses valores básicos aos quais nos queremos manter fiéis mesmo em condições adversas, e tentar inventar soluções criativas e solidárias de resposta ao novo fenómeno do terrorismo.
Helena
... ou quantos forem precisos!
Um Blog fundado pelo Zé, pela Lena e pela Céu. O Zé é o desafiador. A Lena é a nossa correspondente no estrãogeiro. A Céu é quem os meteu nesta "encrenca"! Estamos a congeminar Ideias e a pensar em convidar outros Amigos! Até lá!
nada de novo... mais um teste
http://conversa.blogs.sapo.pt/